Relatório aponta crescimento da violência contra imigrantes

Relatório aponta crescimento da violência contra imigrantes

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Tocando de Primeira

Um relatório divulgado pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) nesta terça-feira indica que a curva da violência contra imigrantes centro-americanos que tentam cruzar o México para chegar aos Estados Unidos é ascendente, alavancada por políticas de endurecimento contra a imigração irregular, como o Protocolo de Proteção aos Migrantes (PPM), implantado pelos Estados Unidos em janeiro de 2019.

O protocolo estabelece a devolução ao México de imigrantes sem documentos detidos nos Estados Unidos, para que eles esperem lá a resposta a seu pedido de refúgio. Até agora, 57 mil imigrantes foram devolvidos sob o PPM.

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Segundo informações do relatório “Sem saída“, baseado em 26 mil atendimentos feitos pela MSF no México entre janeiro de 2018 e outubro de 2019, o número de casos de violência sexual atendidos nos primeiros nove meses de 2019 (277) mais que dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior (118).

De acordo com o estudo, 43,9% dos pacientes da MSF incluídos no PPM atendidos em setembro de 2019 na cidade mexicana de Nova Laredo, próximo à fronteira com os Estados Unidos, haviam sido sequestrados recentemente e outros 12,2% foram vítimas de tentativa de sequestro. Em outubro de 2019, essa porcentagem passou a 75%, atingindo 33 dos 44 novos pacientes atendidos pela organização na cidade naquele mês.

Nuni Jorgensen, demógrafa da MSF, explicou ao GLOBO que muitos desses imigrantes têm família nos Estados Unidos e por isso se tornam alvos de quadrilhas mexicanas que atuam na fronteira.

O relatório inclui uma enquete mais detalhada feita com 480 imigrantes atendidos em albergues no Sul e na região central do México, que mostrou que 39,3% deles sofreram alguma violência durante a passagem pelo país, e 27,3% disseram ter sofrido ameaças ou extorsão.

— A grande maioria dos imigrantes é roubada na fronteira, geralmente em situações que envolvem arma de fogo — afirma Jorgensen. — Eles relatam que, quando entram no México, são violentados tanto por grupos armados quanto pela polícia.

Os dados da enquete detalhada mostram que a violência é um fator importante para a decisão de emigrar. Dos 480 entrevistados, 61,9% foram expostos a alguma situação violenta em seus países de origem. Destes, 42,5% tiveram um parente morto, 16,2% tiveram um parente desaparecido, e 9,2% tiveram um parente sequestrado. Além disso, 35,83% foram ameaçados para fins de extorsão e 26,9% sofreram algum tipo de agressão.

Referindo-se aos casos de violência sexual contra imigrantes, Jorgensen afirmou que existe “um problema seríssimo de violência de gênero na América Central”.

— Essas mulheres são violentadas tanto nos países de origem quanto na rota migratória — diz Jorgensen.

Segundo a demógrafa da MSF, uma em cada cinco mulheres entrevistadas na pesquisa mais detalhada já havia sido estuprada.

— As mulheres não migram da mesma forma que os homens — afirma. — Em geral, você acha muito poucas mulheres nos albergues, porque é muito perigoso migrar sozinha. As mulheres migram por rotas alternativas, por meio de contrabandistas e traficantes, o que as deixa mais expostas à violência sexual, pois acabam ficando fora do alcance dos grupos de ajuda humanitária.

Mudança de perfil demográfico

O relatório aponta ainda uma possível mudança do perfil demográfico da população em trânsito, que hoje conta com grande presença de famílias, mulheres e menores de idade desacompanhados — antes, o perfil do imigrante resumia-se, praticamente, a homens jovens solteiros.

Jorgensen, porém, faz uma ressalva:

— São dados de apreensão, não de fluxo (migratório), por isso não sabemos se realmente aumentou (o número de famílias e menores desacompanhados) ou se o governo está  apreendendo mais famílias e menores desacompanhados — explica. — Acho que é uma conjunção dos dois fatores.

Para Nuni Jorgensen, a perpetuação dos índices de violência ocorre em parte devido à pressão americana para que o México endurecesse sua política anti-imigração, impedindo dessa forma que os imigrantes cheguem à fronteira dos Estados Unidos.

— Isso acontece em vários contextos migratórios: quando você acirra as políticas (anti-imigração), você faz com que as pessoas usem serviços de contrabandistas e traficantes e acabem passando por rotas mais inóspitas, que tendem a ser, consequentemente, mais perigosas — afirma. — Você se protege da polícia, mas se coloca em risco de ser encontrado por um grupo criminoso.

Fonte: O Globo

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