Publicitário larga emprego e investe na criação de bonecos

Publicitário larga emprego e investe na criação de bonecos

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Quem chega ao estúdio do artista plástico Caio Morel, em Vinhedo (SP), é recebido por uma verdadeira constelação do rock – de resina e sem holofotes – agrupada sobre o palco de uma estante. A formação vai de um despojado Mick Jagger à versão contemplativa de David Gilmour, incluindo outros astros como Freddie Mercury, Bono, Slash, Bowie, Lemmy Kilmister e Steven Tyler.

Em meio aos reflexos da crise econômica internacional de 2009, Morel decidiu abandonar a carreira de publicitário para se apegar ao hobby de trabalhar com massa de modelar. Longe de brincadeiras e sem garantias, conta, deixou a agência onde atuava em São Paulo para buscar realização pessoal.

A primeira experiência com o material foi na adolescência. Ele lembra que a brincadeira foi uma alternativa para contornar o tédio durante visita a um sítio com familiares, e à época tentou fazer homenagem para um tio que considera caricato.

“Foi totalmente sem querer. Peguei palito, garfo, ficou relativamente bom. Naquele minuto eu pensei: ‘Isso é muito legal'”, destaca entusiasmado.

Para explicar a transição entre as atividades, o artista apega-se à memória durante a entrevista. Ele lembra que a maior parte do aprendizado foi autodidata e, no início, ele era responsável por toda a produção das peças, incluindo modelagem, pintura, venda e atendimento aos clientes. Começou com três e atualmente, aos 34 anos, já reúne 50 que refletem as paixões por gibis, filmes e música.

“O ambiente da resina é hostil, o cheiro é complicado, Foi minha prova, poderia ter desistido no segundo ano já. Trabalhava 16 horas, fiquei sem grana, ninguém me conhecia, trabalhava nos fundos da casa da minha mãe, com goteira, mas todas as dificuldades eu tentava reverter em algo positivo”, explica o artista plástico. O retorno financeiro no início, admite, era abaixo do esperado.

“Eu precisava ir às agências tentar convencer as pessoas. Quando conseguia, jogavam preço para baixo […] Mas eu precisava pegar trabalho para ganhar nem que fosse R$ 50”, conta. Os pais dele eram reticentes no início da labuta, admite Morel. “Faziam advertências, mas eu precisava tentar”.

Guinada

Morel afirma que a atividade passou a ser desenvolvida com mais facilidade depois que ele se mudou para o interior do estado com a mulher Fernanda Leite, onde abriu um estúdio em 2010.

Pai de duas crianças, ele mantém parceria com quatro amigos na “linha de produção remota” que passa por Limeira, Vinhedo e a capital paulista: Morel desenvolve protótipos e primeira modelagem, enquanto colegas ajudam com as reproduções em resina, pintura com tinta acrílica e acabamentos dos bonecos. Já a mulher dele cuida das tarefas administrativa e financeira da loja.

“Quero chegar a uma galeria com 200 em quatro, cinco anos”, afirma ao descrever que o objetivo é desenvolver trabalhos que sejam marcantes para quem visita o espaço ou decide comprá-los. Atualmente, ele vende de 50 a 150 por mês para clientes na região, Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF), São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS).

Cada boneco tem 30 cm e pesa média de 750g. Entre os personagens do cinema representados estão Don Corleone (“O Poderoso Chefão”) e Rufus (“Kill Bill”).

“Para criar, há uma imersão mesmo. Uso muitas fotos, ficou ouvindo músicas, vejo clipes”, conta o artista plástico que é fã dos trabalhos de Robert Crumb, Laerte e Albert Uderzo. Entre os destaques do repertório está a representação do ex-jogador Sócrates, ídolo do Corinthians no fim da década de 1970. “Meu pai sempre falou dele. Queria criar a peça de um jogador que fosse uma lenda.”

Reconhecimento

Um dos momentos marcantes na trajetória, explica, ocorreu quando uma editora solicitou um modelo para presentear o escritor Mario Sergio Cortella, no início do mês, pelas vendas de um livro.

Foto: Reprodução / Facebook

Fonte: G1