Por que essa gestora obriga os clientes a investir em negócios sociais

Por que essa gestora obriga os clientes a investir em negócios sociais

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Tocando de Primeira

Quando resolveu abrir seu próprio escritório, em 2015, Fernanda Camargo sabia que queria continuar fazendo o que sempre fez – gestão de patrimônio -, mas de um jeito diferente. Foi assim que nasceu a Wright Capital, um family office onde 1% do patrimônio dos clientes deve ser alocado em fundos de investimentos em negócios de impacto social.

Hoje, a Wright atende 35 famílias de alta renda com um patrimônio total de 3 bilhões de reais. Os fundos de impacto, até 2018, tinham recebido delas 10,9 milhões de reais. “Já que vamos dedicar a vida a isso, que seja para algo significante, e não só para aumentar o patrimônio e competir com o concorrente”, diz ela.

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Encontrou um mercado ainda jovem e pequeno no Brasil, mas que busca caminhos para se desenvolver. Os fundos de impacto social são como os já mais conhecidos fundos de private equity ou de venture capital, que aportam capital direto em empresas em troca de espera-las crescer e colher os lucros depois. A diferença é que, nos fundos de impacto, os negócios que entram no portfólio devem promover ganhos à sociedade ou ao ambiente – sem deixar de gerar lucro.

A Terra Nova, que ajuda famílias envolvidas em conflitos fundiários a regularizarem suas terras, e a Órigo, que fornece painéis de energia solar para comunidades afastadas, são exemplos de empresas que integram os fundos em que a Wright investe o 1% de seus clientes.

Parece pouco, mas é um mercado ainda tão incipiente que, mesmo com mais dinheiro em mãos, faltam projetos para investir. Os primeiros fundos de impacto foram criados só de 2009 para cá e ainda são poucos e pequenos. A boa notícia é que o número de bancos e gestoras interessadas em também criarem seus próprios fundos do gênero, de acordo com Fernanda, está crescendo.

“Nós, do mercado financeiro, sempre pensamos apenas na relação entre risco e retorno do investimento, e tudo bem”, diz. “Mas não está tudo bem, e estamos começando a ser cobrados por isso.”

Por que a ideia de investir uma parcela do dinheiro em fundos de impacto social?

Quando criamos a Wrigth, eu já tinha na cabeça a ideia de só lidar com famílias que queiram fazer uma transformação social. Já que vamos dedicar a vida a isso, que seja para algo significante, e não só para aumentar o patrimônio e competir com o concorrente. Muitas delas já faziam filantropia, mas não é a mesma coisa. A filantropia é importantíssima, mas, sozinha, não vai resolver tudo. Filantropia é doação, enquanto o negócio de impacto tem sustentabilidade financeira e dá lucro. Com o tamanho dos juros no Brasil, é difícil atrair um superinvestidor ou um superempreendedor para um negócio que não dará nada para ele.

Como esses impactos são medidos?

Fazemos um relatório a cada dois anos para demonstrar o que está sendo feio. Fazemos questão de mostrar para o nosso cliente que aquele 1% dele está efetivamente mudando a vida de um monte de gente: foi para empresas que atingiram 6,3 milhões de alunos, que ajudaram 13 mil famílias a conseguirem o título de sua propriedade, levaram produtos financeiros para 780 mil pessoas, reflorestaram o equivalente a 1,2 milhão de campos de futebol. São retornos concretos.

E, do outro lado, qual tem sido o retorno financeiro desses investimentos?

No mercado de venture capital, há um primeiro momento que é de gastos, de investir na empresa. Leva um tempo para que o retorno apareça. Nosso fundo ainda está no meio desse caminho, e, mesmo assim, dá um retorno anual em torno do CDI. Claro que isso é só uma estimativa de quanto aquelas empresas valem, só vamos saber de fato quando sairmos do investimento, lá na frente. A primeira saída bem sucedida de um negócio de impacto no Brasil foi a Tem, uma empresa de cartão pré-pago de saúde, que deu um retorno médio de 26% ao ano quando foi vendida, o que já é incrível para um mercado ainda cheio de barreiras.

Os fundos de investimentos em negócios de impacto social são um negócio bastante novo no Brasil. Isso gerou algum tipo de dificuldade para vocês?

É um dos nossos principais obstáculos. É uma indústria ainda muito nova e minúscula. Há poucas opções de fundos e o Brasil não é um grande produtor de empreendedorismo, o que torna difícil achar projetos em que investir. Além disso, as empresas de impacto são pequenininhas, o que significa que não dá para fazer fundos gigantes. Eles têm de 70 milhões a 100 milhões de reais investidos, enquanto um fundo normal de private equity tem 1 bilhão ou 2 bilhões de reais. Até há investidores que querem botar mais dinheiro no fundo de impacto, mas não conseguem, senão ficam com uma participação muito grande e não é permitido. Temos que esperar vários dos fundos em que investimos crescerem para que, daí, possamos investir mais.

O que precisa para que esse mercado se desenvolva mais?

Várias peças precisam se mexer. Isso envolve a regulação, o governo, a academia, as aceleradoras e o próprio mercado. É a situação do ovo e a galinha: como investir se faltam negócios, e como haverá negócios se ninguém investe? Alguém tem que começar. Por isso nós damos apoio para outros gestores, para os pequenos empreendedores, estamos dentro da CVM [Comissão de Valores Imobiliários] debatendo a regulação. Para resolver o problema do nosso 1%, estamos mexendo no mercado inteiro.

Vocês acreditam que está crescendo o interesse por investimentos em negócios de impacto social no Brasil?

Sem dúvidas. Os investimentos de impacto, pelas limitações, ainda são concentrados na altíssima renda, mas não há hoje um private bank que não esteja pensando em como oferecer isso para seus clientes, porque eles estão pedindo. Todos os dias há um banco ou uma gestora nos ligando para entender como funciona esse negócio. De um ano para cá, estamos vendo nascer uma nova leva de fundos de impacto que vem de gestores tradicionais, o que indica uma grande mudança de mentalidade.

O que provoca essa mudança de mentalidade?

É uma preocupação das novas gerações. Não é porque as instituições acordaram com o coração amoroso. O investidor está começando a cobrar isso. Ele quer saber para onde o dinheiro está indo. Nós, do mercado financeiro, sempre pensamos apenas na relação entre risco e retorno do investimento, e tudo bem. Tudo bem a violência, o meio ambiente, a desigualdade. Mas não está tudo bem, e estamos começando a ser cobrados por isso.

Fonte: Exame

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