Empreendedorismo: mulheres dominam os negócios

Empreendedorismo: mulheres dominam os negócios

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Tocando de Primeira

Nos últimos 14 anos, a proporção de mulheres comandando um negócio vem crescendo mais a cada dia que passa. Hoje, elas já somam quase oito milhões de empresárias responsáveis por comandar micro e pequenas empresas em todo o Brasil. Para se ter uma ideia, representam a 7ª maior proporção entre os empreendedores iniciais. Com isto, o Brasil se coloca numa posição à frente de países de primeiro mundo como Espanha, Estados Unidos, França e Japão.

Um ponto que chama atenção é que as mulheres respondem por 34% dos donos de negócio, na média nacional. Em Pernambuco, esse montante é ainda maior, 35%. Contudo, ainda é preciso lutar para crescer esse indicador e trazer mais equidade de gênero às empreendedoras. Os dados são relativos ao último relatório da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM – 2016), realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com o Instituto Brasileiro Qualidade e Produtividade (IBQP).

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Divulgada no final de 2017, com base nos dados coletados em 2016, a pesquisa GEM apresenta dados que refletem mudanças sociais: as mulheres já são mais empreendedoras que os homens no Brasil. A taxa de mulheres entre os novos negócios é de 15,4%, enquanto a dos homens é de 12,6%. Quanto ao local de funcionamento do negócio, 55,4% das Microempreendedoras Individuais (MEI) estão sediadas em casa. Entretanto, há quem já conseguiu sair desse passo “inicial” de trabalhar em algum espaço dentro da sua residência. É o caso da empresária e dona da Contém Glitter, Naiara Cândido, que saiu da casa dos pais, onde iniciou seu negócio, e hoje já tem seu próprio ateliê. Nele é onde ocorre toda a magia da produção dos tão famosos colares de glitter que viraram tendência nas festas de momo. A ideia é pioneira no Brasil e Naiara detalha que é justamente no período carnavalesco que consegue vender mais. “Temos 125 variedades de glitter e está para chegar mais 87. Para o carnaval de 2020 já produzimos 15 mil potinhos e a partir de agosto, a produção entra a todo vapor”, explica. Desde quando começou, em 2017, a marca já teve um crescimento na casa dos 500%, o que é superior a muitos negócios espalhados pelo Brasil. A empresa importa o material da China e Alemanha. Neste ano ela vai chegar ao patamar de importação 1 (uma) tonelada.

Por sua vez, no mundo dos empreendedores, nem tudo é festa e glitter. Um ponto que ainda precisa ser combatido é a questão salarial. Ainda de acordo com o estudo do Sebrae, as mulheres donas de negócio ganham 22% a menos que os homens. “A mulher empreendedora tem que acreditar que consegue e depois provar que sabe o que está fazendo e o que quer construir. Existe ainda esse entrave e precisamos quebrar todo o preconceito”, ressalta Naiara. “A mulher é capaz de ser uma empreendedora e de montar seu próprio negócio. Há tempos atrás a gente não tinha toda essa rede de apoio e estruturação que existe atualmente. A empreendedora de hoje é a pessoa que carrega peso, que faz as notas, que contrata, demite”, detalha. “É importante essa cumplicidade de mulheres apoiando mulheres. No carnaval deste ano contratei temporariamente 14 mulheres para ajudar na produção. Todas elas precisavam do dinheiro para sustentar a família”, completa.

Hoje, as 9,3 milhões de mulheres que estão à frente de um negócio representam 34% de todos os donos de negócios formais ou informais no Brasil. A artesã Leila Samudio é dona do seu próprio negócio e largou a carreira estável de arquiteta para se tornar uma empreendedora. Há cerca de 20 anos, Leila faz arte em vidro e usa o dinheiro das vendas para ajudar no sustento da família. A técnica envolve lâminas de vidro sobrepostas e algumas peças que ela produz, chegam a ter uma variedade de quase 30 vidros diferentes, onde o corte é feito milimetricamente com o diamante. Participando pela 18ª vez de mais uma edição da Fenearte deste ano, ela ressalta a importância do trabalho. “Desde criança minha paixão sempre foi o artesanato, sou apaixonada por arte em vidro. É o que gosto de fazer e o que me dar prazer ao acordar de manhã e trabalhar. A gente não tem rotina e pode sair um efeito diferente que encanta e surpreende”, destaca.

Leila detalha ainda que as mulheres estão cada vez mais empoderadas e qualificadas a montarem seu próprio negócio. “A mulher está sendo uma força de trabalho muito poderosa, incontestável. Muitas começam para suprir uma necessidade e se apaixonam por empreender”, explica. Segundo o Sebrae, as Donas de Negócio são cada vez mais “Chefes de domicílio” (45%). “Muitas famílias hoje dependem da renda da mulher. Num período de crise, já precisei sustentar a minha família porque meu marido ficou sem emprego. O artesanato em vidro que me trouxe renda e foi dele que consegui tirar dinheiro para pagar as contas do fim do mês”, completa Leila.

Parcerias para melhorar qualificação
Com intuito de capacitar mulheres, a Secretaria da Mulher de Pernambuco, em parceria com o Instituto Rede de Mulher Empreendedora assinaram um termo de cooperação técnica. Até dezembro de 2020, a meta da Secretaria é capacitar 5,5 mil mulheres empreendedoras em todo Estado. A nível Brasil, o objetivo do Ela Pode, iniciativa do instituto Rede, é capacitar 135 mil mulheres. No Estado, a meta é impactar 11 mil mulheres por meio da instituição. “É um programa de mulheres feito para mulheres. O propósito maior é contribuir para que elas saiam do ciclo de violência, pobreza e passem a ter independência econômica”, ressalta a coordenadora do Instituto Rede Mulher Empreendedora, Daiany Saldanha.

A capacitação tem temas voltados a aspectos centrais do empreendedorismo, como aprender a lidar com dinheiro, como vender melhor, como gerir um negócio, negociar descontos. “Procuramos estabelecer parcerias para auxiliar as mulheres a impulsionar seus negócios”, explica a coordenadora de Trabalho e Renda da Secretaria da Mulher de Pernambuco, Carolina Malinconico. A qualificação ofertada pela secretaria é gratuita com uma carga horária de 16 horas que acontece de maneira flexível, de acordo com a necessidade de cada uma.

Solução para se tornar preparada para empreender em seu negócio, a capacitação é um caminho pertinente para alavancar no meio do empreendedorismo. É como aconteceu com a artesã Cinara Guimarães, que faz arte em biscuit há mais de 20 anos. Depois de ter passado pela qualificação do Ela Pode, ela destaca que conseguiu aprender como falar em público e melhorar suas redes sociais para ampliar as vendas. “Foi muito gratificante e de lá eu saí pronta para vender meus produtos. Trabalho com artesanato há 24 anos, mas antes eu não me sentia confiante. Aprendi a dar valor ao meu trabalho”, detalha.

Porto Digital 
A área de Tecnologia e Economia Criativa, contudo, não fica de fora. No ano passado, o Porto Digital lançou o programa Mulheres em Inovação Negócios e Artes (MINAs), que visa ofertar mais equidade de gênero. A iniciativa do projeto começou em 2017, mas em 2018 o projeto já começou a atuar. O programa visa dar formação, qualificação e fomento para alunas que vão desde o ensino fundamental, ao ensino superior. O MINAs tem articulação com as principais instituições de ensino do Estado, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade de Pernambuco (UPE), Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

A gerente de projetos do Porto Digital, Marcela Valença destaca a importância de qualificar mulheres. “É preciso atingir essa falta de mulheres no segmento de tecnologia na raiz do problema, que acontece lá no ensino fundamental e médio. As mulheres são direcionadas a áreas de saúde, humanas, e desta forma, cria-se a escassez de profissionais mulheres no setor de tecnologia e negócios”, detalha. “A gente precisa dar qualificação para que elas desenvolvam todo seu potencial profissional para evoluírem como futuras mulheres empreendedoras”, conclui.

Fonte: Folha PE

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