“Diversidade é condição para inovação”

“Diversidade é condição para inovação”

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A premissa de que inovação só se cria com diversidade – muito mais do que com tecnologias puras – é evidente para a executiva Regina Magalhães. Gerente sênior de sustentabilidade e inovação da Schneider Electric na América do Sul, Regina defende que nenhuma empresa sobreviverá à transformação digital se não cultivar uma equipe diversa. Com mais mulheres e funcionários que representem a variedade da população e, assim, saibam prever suas necessidades para criar produtos e serviços que terão sucesso.

 

“Você só vai entender e reconhecer os problemas da sociedade se uma grande parte da população que hoje não está inserida na empresa puder fazer parte dela”, disse durante participação no The Ring The Bell For Gender Equality, evento realizado pela B3 e pela ONU Mulheres em São Paulo, nesta semana. “Precisamos incluir especialmente as pessoas mais distantes do mundo corporativo, como por exemplo, as mulheres negras. Como você pensa um negócio se você não entende a influência da cultura afrodescendente na cultura brasileira?”, disse.

Regina construiu sua carreira em setores predominantemente masculinos. Formada em agronomia, trabalhou no mercado financeiro, foi consultora para o setor de construção civil e hoje atua em uma empresa de tecnologia. É PhD em ciência ambiental pela Universidade de São Paulo (USP). Foram raras as vezes, porém, que diz ter sentido necessidade de brigar para firmar sua posição. “Se você tem confiança sobre sua capacidade e sabe muito bem quais são seus objetivos no longo prazo, você supera essas dificuldades. Você ignora um pouco as atitudes ao redor”, disse. Em conversa com Época NEGÓCIOS durante o evento, Regina comentou sobre sua carreira, liderança feminina e as metas que a Schneider estabeleceu para construir a diversidade interna. E, assim, inovar mais.

O que transformação digital tem a ver com diversidade de funcionários? 

Transformação digital não acontece só com mudanças tecnológicas. Ocorre somente se houver mudanças culturais. A inclusão das mulheres nesse processo é fundamental para essa mudança cultural, principalmente porque a mudança precisa ter sentido, o que a empresa desenvolve precisa ter um objetivo. Quando você desenvolve um produto ou um serviço você está buscando atender a uma necessidade da população. É muito importante que esse objetivo seja um problema real, é assim que o negócio será bem sucedido. E aí você só vai entender e reconhecer esses problemas se uma grande parte da população que hoje não está inserida na empresa puder fazer parte dela. Especialmente as pessoas que estão mais distantes do mundo corporativo, como as mulheres negras. Como você pensa um negócio se não entende a influência da cultura afrodescendente na cultura brasileira? Se não entende as oportunidades de negócio que essas pessoas podem gerar às empresas? A inclusão está muito relacionada aos negócios porque estamos hoje deixando de fora uma parte da população que é consumidora, uma parte que desenvolve a cultura onde a empresa está inserida. Diversidade é condição, é causa e consequência para inovação.

É impossível fazer isso sem estabelecer metas? 
Impossível. Porque vivemos em uma sociedade onde há, de fato, diferenças de oportunidades. Você não transforma isso esponteneamente. As poucas mudanças que estão acontecendo são porque objetivos foram definidos previamente. Seja porque as empresas perceberam que essa mudança é necessária, ou porque têm uma pressão de fora para que isso aconteça. Mas temos que pensar que definir objetivos é fácil. Como fazer é o importante.

Como a Schneider busca fazer isso? Quais as metas e as práticas estabelecidas para estimular a diversidade? 
Há uma meta mundial de contratar 40% de mulheres no total, ter 30% de mulheres na liderança da organização e eliminar a diferencia salarial entre homens e mulheres até 2020. Esses objetivos são avaliados em todas reuniões trimestrais de resultados. Analisamos resultados financeiros e os relacionamos à nossa política de igualdade de gênero. Há mulheres sendo demitidas? Por qual motivo? Estamos contratando profissionais diversos? Se não, por qual razão?

Mas além de metas, é preciso de estímulos para cumpri-las…
Na Schneider, essas metas de diversidade entram nas metas individuais dos gestores. Se não fizerem, a remuneração cai. Além disso, a empresa tem um orçamento especifíco para reduzir as diferenças salariais entre homens e mulheres. Mas é preciso também estimular essa diversidade de dentro para fora. Temos um projeto mundial onde estimulamos que estudantes de engenharia apresentem projetos inovadores. Quem vencer irá para a nossa sede, na França. Acontece que os estudantes só podem apresentar os projetos em pares. E uma pessoa da dupla precisa ser mulher.

Você trabalhou em setores tradicionalmente masculinos. Foi algo que te incomodou? 
Eu percebi que trabalhei em setores que são tradicionais (agricultura, financeiro, tecnologia, construção civil) onde a presença masculina é majoritária e onde existe preconceitos. E onde há dificuldade de aceitar diferenças e mudanças. Minha motivação inconsciente de trabalhar nesses setores foi a vontade de mudar algo. Trabalhar num lugar mais confortável onde você se sente mais à vontade não te desafia.

Você acha que precisamos manter uma postura de protesto combativa o tempo todo? 
Acredito que foram raros os momentos que senti necessidade de brigar. Se você tem muita confiança sobre sua capacidade e sabe muito bem quais são seus objetivos no longo prazo, você supera essas dificuldades. Você ignora um pouco atitudes ao redor. Eu sentia algumas coisas, mas nunca dei muita importância. Mas acho que é fundamental para você poder enfrentar os obstáculos e atingir seus objetivos estar muito preparada. Sim, você precisa estar muito mais preparada que as outras pessoas do mercado, mostrar que seu objetivo está à frente disso. E isso exige um esforço muito grande, se diferenciar e se destacar o tempo todo. Mas acho que o fato de estarmos em um evento na Bolsa de Valores, só com mulheres, mostra que já houve uma grande mudança na sociedade.

Fonte: Época