Xingamentos e preconceito: imigrantes haitianos que vivem em São Paulo revelam sofrimento...

Xingamentos e preconceito: imigrantes haitianos que vivem em São Paulo revelam sofrimento social

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Tocando de Primeira

“Eu sofri muito preconceito, principalmente no início. As pessoas me xingavam, mandavam eu voltar para o meu país. Eu chorava todos os dias”, conta o haitiano Cameu Jeaneenis, de 40 anos, e morador de São Paulo desde 2014. Sua trajetória remete ao mesmo caminho que a maioria dos imigrantes no Estado mais rico do País.

Jeaneenis nasceu na capital do Haiti, Porto Príncipe, com pouco mais de um milhão de habitantes. Sem escolaridade, era proprietário de uma loja que vendia material de construção. “Não ganhava muito, mas dava para sustentar a minha família”, conta ele. Na época, morava com os pais e o filho, hoje com 10 anos. No entanto, em 12 de janeiro de 2010, viu todo o seu ganha pão ser destruído, aos poucos, pelo terremoto que atingiu o país e deixou ao menos 230 mil mortes. A saída, segundo o haitiano, “era procurar uma vida melhor, mas fora do Haiti”. A ideia demorou para ser concretizada.

Tocando de Primeira

O haitiano chegou a São Paulo no dia 8 de outubro de 2014, sem dinheiro e sem um rosto conhecido. “Era isso ou nada”, lembra. Desembarcou no aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista, e fora em direção ao Anhangabaú, no centro. “Em frente à Casas Bahia, um amigo haitiano me reconheceu e me cumprimentou”, conta. Desde então, morou em abrigos até se estabelecer economicamente e profissionalmente. Mas, nesse caminho, enfrentou o preconceito e a dificuldade de oferta de emprego. “Nenhuma empresa queria me contratar, por que eu era imigrante, negro, e por não falar a língua local”, diz.

Hoje, cinco anos depois, o haitiano trabalha como ajudante de pintor em uma empresa de pintura de edifícios. Ele também tem um local fixo: mora no Americanópolis, bairro que faz divisa com a cidade da região metropolitana paulista Diadema.

O retrato de sobrevivência de Jeaneenis e demais haitianos foi estudado, no ano passado, pelo professor doutor na Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) José Ailton Rodrigues dos Santos. A exclusão, sofrimento e preconceito em relação aos imigrantes fora analisada por 14 anos pelo docente, que concluiu em Haitianos em São Paulo – exclusão, invisibilidade social e sofrimento social. Desde 2004 até fevereiro de 2019, a Polícia Federal de São Paulo recebeu 31.548 entradas de haitianos no Estado.

De acordo com o professor, a “descoberta” do Brasil pelos haitianos se deu por volta de 2004. A Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti) foi criada, em fevereiro daquele ano, para reestabelecer a segurança e a normalidade do país caribenho após sucessivos episódios de violência e turbulência política, que culminaram com a queda do então presidente Jean Bertrand Aristide. Desde o início, a operação internacional foi liderada pelo Brasil. “Obviamente alguns haitianos já conheciam o nosso país, mas desde a missão esse conhecimento se intensificou, assim como a ideia de vir para cá e tentar uma vida melhor”, conta.

A partir de então, o professor acompanha a trajetória da imigração haitiana em São Paulo. “São homens e mulheres em idade produtiva que vem para cá a fim de trabalho, de gerar economia, de ter uma situação de vida melhor se relacionada com aquela que tinham lá”, diz. No entanto, quando aterrissam em terras brasileiras, os imigrantes haitianos se deparam com a constituição racial e social enraizada na sociedade. “O Brasil é um dos países mais mistos mundialmente, formado por diversas culturas e etnias. No entanto, ainda assim, é um país racista. E São Paulo escancara isso”, afirma — uma pesquisa feita pela Rede Nossa São Paulo, por exemplo, mostrou que 70% dos paulistanos acham que o racismo se manteve ou aumentou nos últimos dez anos. Cerca de 40% dos entrevistados disseram que o preconceito se manteve, enquanto 30% reconheceram que aumentou e 25% acreditam ter diminuído. Não sabem ou não responderam correspondem aos outros 5%.

Situações de exclusão, invisibilidade, depressão e suicídio fazem parte da rotina dessa comunidade na capital paulista. Segundo o professor, os haitianos são colocados às margens das margens. “O povo preto e periférico é visto como marginal. Os haitianos, por sua vez, são vistos de forma ainda pior”, reitera. Santos justifica essa depreciação da seguinte forma: possuem a mesma cor, não conseguem empregos classificados pela sociedade como satisfatórios, assim como o “povo preto e periférico”, se comunicam através de uma língua desconhecida e tem uma religião condenada — o professor explica que não são todos os imigrantes que sofrem desse preconceito. “Um imigrante, originário de algum país europeu, por exemplo, será muito bem-vindo, porque é branco. O que possui origem negra, não”, diz.

Durante a tese, o professor se colocou na situação de haitianos para melhor entendimento do que a comunidade sofre em São Paulo. “Por dois anos, eu mergulhei intensamente no dia a dia dos haitianos. Eu frequentava os mesmos lugares, eu realizava as mesmas atividades, e também dormia com eles nas pensões. Eu cheguei a dormir na rua com eles”, recorda. “E, de fato, esse preconceito existe e é gigantesco”.

Tais situações levaram o professor a concluir a pesquisa com o termo “sofrimento social” — elevada exclusão leva ao abismo dos haitianos em meio à sociedade brasileira, tidos como telespectadores desse racismo. “Enfrentam uma ordem de dificuldades, problemas pessoais, expectativas, renda zero, e um sonho destruído”, aponta Santos.

Como tentativa de minimizar esse sofrimento social, os Estados Membro da ONU (Organização das Nações Unidas) adotaram, em 17 de dezembro de 2018, o Pacto Global sobre refugiados. O acordo é fruto de um processo de construção iniciado com a Declaração de Nova York de 2016, reconhecendo a importância de uma abordagem dos diversos setores envolvidos na imigração. Esses documentos, por sua vez, representam o comprometimento dos países em melhoria das comunidades que migram de um país para outro.

Em reconhecimento da relevância da atuação das cidades na inclusão de imigrantes e refugiados, mais de 60 prefeitos do mundo, incluindo o de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), assinaram a “Declaração de Marraquexe – Cidades trabalhando juntas pelos imigrantes e refugiados”.  A lei 16.478 e o decreto 57.533, ambos de 2016, abordam a questão imigratória na capital paulista, na busca pela consolidação dos direitos e pela garantida da dignidade dos imigrantes, uma vez que o fator é um fenômeno urbano, vivenciado em diversas cidades.

Venezuela

A Venezuela enfrenta a pior migração na história do país. Mais de três milhões de pessoas já fugiram da crise econômica e política, de acordo com dados da ONU. Durante o êxodo, provocado pela violência, hiperinflação e escassez de alimentos e remédios, o país perdeu o equivalente a um de cada 12 habitantes.

Rica em petróleo, a Venezuela mergulhou em uma crise sob o comando do presidente Nicolás Maduro, que prejudicou a economia com intervenções estatais ao mesmo tempo em que reprime opositores políticos. Como saída, diversos venezuelanos buscam uma saída aqui no Brasil.

A força-tarefa brasileira que atua em Roraima, Estado fronteiriço à Venezuela, tem recursos previstos para garantir a operação até março deste ano. Depois disso, será necessário um orçamento extra de cerca de R$ 150 milhões para manter essa missão até o fim do ano, informou o almirante Ademir Sobrinho, chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas.

Cerca de 300 venezuelanos se estabeleceram em São Paulo, no ano de 2018, por meio do processo de interiorização feito pelo governo federal a pedido da Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). “Temos que quebrar todos os conceitos que temos sobre os imigrantes, e entender que devemos abraçá-los, uma vez que estão em pior situação que a nossa, em vez de replicarmos preconceito e colocá-los de lado novamente”, acredita o professor.

Fonte: R7

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