Igrejas oferecem refúgio a imigrantes ilegais em Nova York

Igrejas oferecem refúgio a imigrantes ilegais em Nova York

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NOVA YORK – Semanas atrás, ao final de um culto de domingo no Central Park West, os fiéis da Quarta Sociedade Universalista colocaram as mãos nos ombros de uma mulher que estava no centro da igreja. Em seguida, os outros membros se aproximaram para tocar os ombros dessas pessoas, até que toda a congregação se uniu pelo toque.

O gesto simbolizava seu compromisso de colocar a mulher, Aura Hernandez, 37 anos, imigrante guatemalteca sem documentos, no centro da vida da igreja, por um período que pode se estender por meses ou mesmo anos. Em março, Hernandez se mudou para uma velha saleta da histórica igreja de Upper West Side, junto com sua filha bebê, Camila, para evitar a deportação para a Guatemala. Ao fazê-lo, ela se juntou a cerca de 40 outros imigrantes que estão sendo protegidos publicamente por instituições religiosas nos Estados Unidos. Ela promete permanecer lá até que seu status de imigração mude.

“Não quero ficar aqui de braços cruzados, sem fazer nada”, disse Hernandez, explicando por que procurou o refúgio. “Tenho de erguer minha voz, porque estão cometendo uma injustiça contra mim, contra nós. Acho que estou aqui por um motivo”.

Com a ajuda de outras instituições e voluntários, essa congregação de 130 membros está alimentando Hernandez, lavando a roupa da família e a ajudando a cuidar de Camila, que é cidadã americana e pode sair de casa. Eles planejam comprar carpetes e tintas para reformar a saleta e abriram as portas para Daniel, filho de 10 anos de Hernandez, que passa os finais de semana e as férias escolares com a mãe. Daniel, também nascido nos Estados Unidos, vive no norte da cidade com o marido de Hernandez, que também não tem documentação.

A denominação universalista e unitária exige que os fiéis participem de ações sociais para promover princípios progressistas, explicaram eles. Então esta é uma oportunidade única. “Chamamos este espaço onde oramos de santuário, e isso tem um novo significado agora”, disse o reverendo Schuyler Vogel, durante o culto.

Outra mulher, Amanda Morales Guerra, também da Guatemala, mora na Igreja Episcopal de Holyrood, em Manhattan, desde agosto, com seus filhos de 10, 8 e 3 anos.

As igrejas podem proteger os imigrantes da deportação porque seus espaços são considerados locais sensíveis, onde a Fiscalização Aduaneira e de Imigração (Immigration and Customs Enforcement, ICE na sigla em inglês), evita aplicar suas leis. Mas a ICE se reserva o direito de entrar em locais sensíveis “em circunstâncias limitadas”, nas palavras de política oficial.

Quase completamente presa dentro da igreja por mais de oito meses, Morales disse estar sofrendo ataques de pânico. “Tive um sonho esta semana em que alguém me estrangulava”, disse ela. “Eu gritava, mas ninguém podia me ouvir”.

Ainda que muitos imigrantes sem documentos recebam auxílio jurídico e outros meios de assistência, buscar refúgio em uma igreja continua sendo muito raro, devido às dificuldades envolvidas. A ideia é dar aos imigrantes tempo para que eles entrem com recursos legais, ao mesmo tempo que pressionamos a ICE a conceder benefícios, disse Noel Andersen, do Church World Service, uma organização ecumênica de direitos humanos.

Dos 39 imigrantes que procuraram refúgio público nos Estados Unidos em 2017, nove receberam garantias de adiamento ou cancelamento de deportação, segundo a organização. Dos 12 que buscaram refúgio em 2018, seis receberam essas garantias.

Em Nova York, cerca de dez imigrantes estão se escondendo em locais privados, de acordo com Juan Carlos Ruiz, da New Sanctuary Coalition, que organiza um refúgio.

Hernandez disse que, em 2005, depois de ser detida, foi abusada sexualmente por um policial de fronteira. Tempos depois, seu advogado solicitou um visto especial para vítimas de crime, o que foi negado. O grupo do refúgio está tentando reabrir o caso.

Hernandez disse que espera ficar na igreja só mais alguns meses, mas sabe que pode demorar. Ela não vê outro caminho.

“Eles abusaram de mim fisicamente, psicologicamente, e agora querem me separar dos meus filhos”, disse ela. “Isso eu não vou suportar”.

Com Brazilian Times