Capitão do Deportivo Lara escreve crônica sobre a Venezuela: “É justo o...

Capitão do Deportivo Lara escreve crônica sobre a Venezuela: “É justo o que estamos vivendo?”

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Adversário do Corinthians nesta quinta-feira, Ricardo Andreutti comenta sobre o futebol e o momento crítico do país, a convite do GloboEsporte.com

 

texto abaixo é assinado pelo capitão do Deportivo Lara, da Venezuela, adversário do Corinthians nesta quinta-feira, às 21h30 (de Brasília), pela Taça Libertadores.

Ricardo Andreutti, 30 anos, possui um blog chamado “Com meu Café”, no qual publica de poemas a crônicas sobre a prática do Yoga. A convite do GloboEsporte.com, o venezuelano traz sua visão de mundo e suas impressões sobre as necessidades do país, a política e, claro, o futebol.

O jogador diz que sempre gostou da literatura, mas com o passar do tempo e o apoio da namorada Sofía se apaixonou ainda mais pela escrita, e há seis anos passou a produzir textos com mais frequência.

Veja abaixo o testemunho de Ricardo Andreutti

Entre meu nascer e pôr do sol, o futebol e a Venezuela

Crônica de uma diária transformação

Do nascer ao pôr do sol, eu sofro uma transformação. Passo de um sonho ou uma esperança a um espectador impotente, vítima às vezes da realidade miserável que atinge nossa sociedade. A fronteira que divide o mundo do futebolista – eu sou daqueles que pensam que o jogador vive em uma bolha – com o mundo real na Venezuela está cada vez mais estreita. Eu diria que, para muitos, a bolha está prestes a explodir. Para os que tiveram a sorte de encontrar estabilidade no futebol, seus sonhos e esperanças estão perdendo prioridade à medida que passam as horas do dia e eles se conectam com a realidade cruel, tentando concentrar seu foco e atenção no bem-estar de seu círculo familiar.

Saio às 6h da manhã para treinar com a esperança de quem fará o que mais ama. Em menos de cinco ruas atravessadas e poucos minutos depois, conto cinco pessoas revirando o lixo procurando o que comer, sempre rostos diferentes, mas, sem dúvida, com as mesmas necessidades.

A boa atitude com a qual começo meus dias muda de face. Começam os questionamentos. Me pergunto quais são minhas prioridades. É justo o que estamos vivendo?

Eu também sofro com a epidemia de distâncias que os venezuelanos sofrem. A maioria dos meus parentes também teve que emigrar à procura de novas oportunidades. E, assim, passando as horas e percorrendo alguns metros na rua olhando para um mar de rostos agonizantes, começa este jogo. Um jogo diferente. Começa a luta entre minhas estoicas convicções como cidadão e humano contra os muitos males que nos afligem todos os dias e tentam nos derrubar.

Ricardo Andreutti, do Deportivo Lara (Foto: Divulgação/Deportivo Lara)
Ricardo Andreutti, do Deportivo Lara (Foto: Divulgação/Deportivo Lara)

Seguem passando as horas do dia e, no meu lugar preferido, o campo de treinamento, na convivência com meus companheiros de equipe, os temas já não são unicamente sobre as questões de jogos, piadas ou brincadeiras. Passamos nosso tempo fazendo menção a lugares onde há melhores ofertas para fazer compras, conseguir artigos de necessidades básicas ou medicamentos. Ou coisas banais, como onde sair para comer sem pagar demais. O que para a maioria das pessoas trabalhadoras seria algo normal, sair para comer em família, nós consideramos como uma benção que o futebol nos permite fazer de vez em quando.

Isso de “sair para comer em família” é uma frase esquecida no vocabulário venezuelano.

Não me envergonha dizer: se há algo que nos enche de tranquilidade ao ir ao exterior para disputar alguma partida, afora o sonho principal que representa jogar uma partida internacional e deixar o nome do meu país no alto, é poder ter a possibilidade de comprar e conseguir alguns artigos básicos que não conseguimos na Venezuela. O significado de “verba de viagem” mudou, já não é “prazer” um dos conceitos que a definem. Agora o seu significado é de “desafogo econômico”, “poupança”, “se por acaso”…

A maioria de nós usa a oportunidade de ir ao exterior para encontrar os produtos que não conseguimos na Venezuela (e se conseguisse seria no mercado negro a preços escandalosos), incluindo algo tão básico para nós, como um par de chuteiras, suplementos multivitamínicos, ferramentas para potencializar nosso rendimento e por aí vai.

Lara enfrentou o Corinthians em Itaquera. Andreutti é o último agachado à direita (Foto: Marcos Ribolli)
Lara enfrentou o Corinthians em Itaquera. Andreutti é o último agachado à direita (Foto: Marcos Ribolli)

Ao voltar para casa depois de treinar, transito por perto de supermercados ou farmácias e observo longas filas de pessoas que começam a se formar desde a madrugada para comprar produtos regulados. Essa realidade eclipsa nossa visão para o desenvolvimento cultural. As pessoas, inclusive crianças, esgotam seu tempo em filas para conseguir produtos em vez de aproveitá-lo enriquecendo a sua educação. Nossos jovens vão a escolas que não têm recursos econômicos nem ferramentas para seu crescimento integral. Isso se soma à má alimentação. Será o seu desenvolvimento o ideal para entrar em uma sociedade tão competitiva? Obviamente que não.

Se nosso presente é delicado, não dá nem para falar do que estamos fazendo pensando em nosso futuro.

Levemos isso ao esporte. Como renderá um atleta de alta performance tendo sofrido desnutrição infantil? Como enfrentará suas tarefas cognitivas se seus estímulos intelectuais foram tão precários? Como entender o valor do componente humano na convivência entre pessoas de sua equipe se seus pais não estiveram presentes? De onde absorvem esses valores familiares quando seus pais estiveram longe pela necessidade de trabalhar? Ou, mais ainda, porque foram assassinados pela insignificância que passou a ter a vida em meu país.

É difícil entender os bons resultados e a estranha evolução de nosso futebol em nível nacional e internacional, assim como as boas atuações de venezuelanos no exterior. E se é difícil entender, mais ainda é explicar. Pode ser uma soma de circunstâncias que se alinham a nosso favor, que certamente as celebro e procuro valorizar. Desde o efeito globalizado e universal do futebol, que expande seus tentáculos e abrange uma gama ampla de ação, à aposta de pessoas e empresários com grande visão e esperança em nosso país, o talento inegável que há na Venezuela, até a gente trabalhadora que faz esforços sobre-humanos para manter o desenvolvimento do esporte em um país em que as instituições estão em decadência são as causas desses sucessos em minha visão. Classifico os triunfos individuais e coletivos como atos heroicos, e não consequência de processos estruturados.

Chegando o pôr do sol – cabe destacar que Barquisimeto é famosa por seus belos entardeceres – a transformação do otimismo com o qual começo as manhãs em desgaste já é uma realidade. Porque somos os alvos de um contínuo bombardeio de emoções negativas que vivemos em nossas ruas. Quero terminar o dia tranquilo, vendo um pouco de futebol na TV, possivelmente a Copa Libertadores, um dos nossos compromissos em disputa. Quando antes mencionei ser um dos tantos venezuelanos que padecem da “epidemia das distâncias”, cada partida da Libertadores que eu vejo me recorda isso. Porque tivemos a alegria de obter vitórias em casa muito importantes para nossa instituição e nosso futebol nacional, como foram os jogos contra Independiente e Millonarios. Cheguei em casa, depois de tanta alegria pelo que representa essa conquista e pelo dever cumprido, e não tinha nenhum familiar, nem minha noiva, nem nenhum ente querido próximo com quem celebrar, nem que fosse um abraço. E o que é pior, sendo um venezuelano na Venezuela.

Recordo exatamente as duas situações, uma como a outra: fecho a porta de casa, deixo a mochila no chão e, parado junto à porta, olho ao redor da sala da minha casa e digo a mim mesmo: “E agora? De que serve tudo isso?”.

É um ciclo diário, todos fechamos os olhos todas as noites apostando em um poder de cura dos nossos travesseiros. O deus Morfeu tem trabalho dobrado conosco, venezuelanos. Não só tem que cuidar dos nossos sonhos, mas também de alguns estômagos, alguns bolsos e de drenar muitas mentes. Felizmente, sempre me realiza esta última, que é o que preciso.

Andreutti fazendo o que mais gosta: jogar futebol (Foto: Divulgação/Deportivo Lara)
Andreutti fazendo o que mais gosta: jogar futebol (Foto: Divulgação/Deportivo Lara)

Existem muitos heróis escondidos em meu país, muita gente que é símbolo de esperança. Se foi criado um sentimento de preocupação e solidariedade entre os irmãos venezuelanos, entre os jovens foi despertada uma necessidade de ajuda social. Existem pessoas que veem nestas crises uma oportunidade, se preparam e estão atentas à sua chance, que lhes deem uma oportunidade de voar. Quero acreditar que posso ser parte desse grupo de pessoas. À medida que me envolvo com as necessidades da minha gente, à medida que pratico esse esporte que cada dia aproveito mais, este estilo de vida que não mudaria por nada, me dou conta que há coisas mais importantes. O futebol não é o mais lindo nem o mais importante do mundo, mas faz desse mundo um lugar mais lindo e mais importante quando se compartilha e se ajuda através da bola.

Sou partidário da ideia que temos que ser os melhores embaixadores de nosso país, seres humanos empreendedores e bondosos dentro e fora de nossas fronteiras, porque é o que nos define. Sei que há muitos venezuelanos que levam sua mentalidade marginal a outros países e nos deixam mal vistos. Mas a maioria dos venezuelanos são como os jogadores do Deportivo Lara, que ante palavras xenofóbicas que ferem, como “venezuelano morto de fome”, não respondemos com violência, respondemos com vitórias, categoria e excelência.

Este texto é dedicado à minha namorada Sofia, à minha família que está distante, à minha Venezuela e a esses companheiros de equipe que se transformaram em um braço que me sustenta em minhas muitas lutas e no meu desejo de contribuir.”

– P U N T O –

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Via GloboEsporte.com