Menos gramática, mais interpretação de texto

Menos gramática, mais interpretação de texto

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É dia de ler, escrever e interpretar. A prova de linguagens, códigos e suas tecnologias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é aquela com maior abrangência de disciplinas reunidas em uma única área do conhecimento. Nela, cabem língua portuguesa, literatura, artes, língua estrangeira (inglês ou espanhol), educação física e tecnologias da informação e comunicação. Para a a avaliação, foco e treino são o primeiro passo. As etapas seguintes envolvem percepção interpretativa e abrangência cognitiva, que, certamente, farão os candidatos irem além. Na data de aplicação, 4 de novembro, os candidatos terão ainda que buscar um tempinho extra para uma bateria de questões de ciências humanas e a escrita de uma redação.

Welberth Santana, 26 anos Estímulo à leitura e debate promovido pelo Cemi Gama foi fundamental para o desempenho no Enem do estudante, que hoje cursa biologia na Universidade de Brasília
(foto: Catarine Cavalcante/Esp.CB/D.A Press)

Nesse dia, portanto, nada escapará às exigências do bom uso da comunicação. Ao longo de 45 questões, serão avaliadas competências como identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos, recorrer aos sistemas de comunicação, relacionar informações e reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.

Densa e variada, a prova exige desenvoltura no ato da leitura e compreensão das expressões artísticas. Não por acaso, a variedade de conteúdos vem causando oscilação nas últimas edições: de 2015 a 2016, a média geral subiu de 505,3 para 520,5 pontos, mas, em 2017, regrediu para 510,2. No Distrito Federal, o desempenho geral no ano passado foi melhor do que o resto do país: 536,2 pontos. Segundo dados levantados pelo curso Exatas, em todas as áreas de conhecimento do Enem, apenas duas habilidades — 15 e 25 — aparecem três vezes, ambas em linguagens. Elas versam sobre “estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção” e “identificar as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro”, respectivamente.

A rotina de estudos de Amanda Flores, 17 anos, procura abarcar todas as áreas. “Até o primeiro semestre deste ano, eu estudava as matérias que via no dia e, no sábado, terminava as disciplinas que não tinha conseguido estudar na semana.” Como chegar, então, à boa leitura dos mais diferentes aspectos com a mesma qualidade? Nesta edição do Especial Enem, o Correio traz dicas, especialmente, de português e literatura, vindas de professores da área e alunos que já atravessaram esse desafio. Semanal, o caderno retornará em breve à essa área de conhecimento, a fim de tratar das parcelas de línguas estrangeiras e artes da avaliação.

Beatriz Pimentel, 17 anos Sempre gostei de ler. Interpretação de texto é uma construção do dia a dia%u201D
(foto: Marília Lima/Esp.CB/D.A Press)

Como se lesse um jornal

Professora de português do Centro de Ensino Médio Integrado do Gama (Cemi), Jacqueline Cavalcante faz uma analogia interessante sobre os caminhos de linguagens no Enem. Para ela, dá para abrir a prova como quem “abre um jornal e vai passeando pelos cadernos”. Buscando atualidades em pauta, o candidato pode, de quebra, notar a variedade textual que passa no dia a dia do noticiário: reportagens dos mais diversos temas compartilham o espaço com fotografia, desenho, charge, tiras, editoriais e peças publicitárias. “Dentro de linguagens, os nossos alunos percebem muito texto. O Enem pega pesado nesse aspecto. Cobra diversas linguagens dentro da prova, muitos gêneros e muita informação não textual também”, analisa. “É preciso ler, ler muito, porque você precisa ter repertório para leitura e argumento para escrita.

Não por acaso, a professora mantém há anos um projeto em sala de aula que trabalha sob a perspectiva semanal de leitura e debate do que sai nos jornais. “Assim, eles entendem melhor os gêneros, praticam a oralidade e enriquecem seus argumentos.” O efeito foi decisivo para Welberth Santana, 26, que fez o Enem em 2016 e hoje cursa biologia. “A leitura do que está em pauta, o que é debatido no cotidiano, nos ajuda a entender um todo. A parcela de linguagens é totalmente interpretativa. Penso que é importante desenvolver, durante as aulas, o prazer da leitura. Nunca torná-la maçante.”

Ler as linhas e as entrelinhas

Geovane Nunes, 17, busca conhecimento em outras formas de expressão, como a música
(foto: Marília Lima/Esp.CB/D.A Press)
Amanda Flores, 17, concilia obras exigidas para vestibulares com outras leituras
(foto: Marília Lima/Esp.CB/D.A Press)

Professor do Colégio Militar de Brasília (CMB), Luiz Fernando Batista classifica a prova como “bela e instigante”. Para ele, a abordagem tem sido a mesma ao longo dos anos, e o resultado é revigorante até para os próprios docentes. “O formato de linguagens no Enem fez com que muitos de nós, professores, iniciássemos uma revisão de nossas posições, valorizando a capacidade interpretativa de texto. Entender a escola como agente de transformação é valorizar a riqueza da língua e aguçar o senso crítico que os alunos têm dentro de si. O candidato deve estar atento à sua capacidade de ler o mundo.”

Quanto a isso, estudantes como Beatriz Pimentel, 17 anos, podem levar vantagem. “Sempre gostei muito de ler, e acho que a parte de interpretação de texto a gente trabalha no dia a dia com leitura, debatendo os assuntos e revendo as matérias da escola”, afirma. Fã de ficção e poesia, ela não duvida de sua qualidade de interpretação, mas se preocupa com o volume de textos. “É uma prova bem cansativa pela quantidade deles. Tenho facilidade em português, basta saber controlar o tempo gasto em cada matéria.”

Para Clara Costa Silva, 19, o hábito da leitura, desenvolvido por ela também no Centro de Ensino Médio Integrado do Gama, foi fundamental para seu bom desempenho no Enem e o posterior ingresso na faculdade de engenharia química da Universidade de Brasília. “Eu gostava de pegar os livros por conta própria, mas foi importante também que o colégio puxasse o hábito de ler notícias e consumir arte”, conta. “Infelizmente, depois que entrei na faculdade, a carga horária de estudos tem me atrapalhado a manter esse hábito.”
“No exame, o candidato se vê obrigado a ler linhas e entrelinhas. Ter percepção para além do que está explícito”, observa Alexandre Corrêa, professor de português do QConcursos. Eminentemente semântica, ou seja, ligada ao sentido e à interpretação, esta é uma prova que não permite leitura superficial dos textos que abrem as questões. “Nunca se deve esquecer do que está implícito em cada passagem, enxergando os marcadores de pressuposição, que permitem ao leitor inferir conteúdos.”

Nem por isso, o conhecimento gramatical perde função no Enem. “Alguns candidatos têm o seguinte pensamento: ‘a gramática é uma parte irrelevante’. Não é verdade, definitivamente”, afirma Lucilvana dos Santos, professora do #BoraVencer. “Ela é aplicada em todas as áreas da prova. Não é um assunto menor, porque permeia todo o exame”, diz. Alexandre Corrêa concorda. “Não estou dizendo, é claro, que não se deve ter noção da gramática normativa, como pontuação, mas ela não cai diretamente, numa questão do tipo ‘onde está o erro da sentença?’. Por essas e outras, não há dúvidas de que é a melhor prova de lingua portuguesa do Brasil.”


Literatura

As questões referentes à literatura ocupam 22% da prova, em média. Arthur Leão, 17, admite que não é tão afeito à leitura quanto deveria e se preocupa com o volume de textos, especialmente os literários. “Literatura é a mais puxada, porque são vários movimentos e autores muito próximos uns dos outros.”

Professora da disciplina no CMB, Juliana Amorim relativiza a preocupação de alunos como Arthur. “Sabe-se hoje que a literatura não é mais analisada sob o ponto de vista de dados referenciais apenas (ano de publicação, datas, marcos literários). Atualmente, serve como suporte de reflexão e análise social de uma época, sob a perspectiva de autores que conseguiram produzir obras que desenvolvem um olhar crítico, mesmo na forma de ficcionalidade.” Para ela, a tendência da prova é enxergar, na ficção, um meio eficaz de verificar os sentidos e sentimentos de uma determinada época, notando nuances e detalhes que, talvez, escapem às outras formas de registros de momentos históricos.

A menos de dois meses da prova, Geovane Nunes, 17, amplia o repertório de ferramentas para ajudar na resolução das questões. “Músicas são muito importantes para adquirir referências textuais. Também leio artigos sobre vários temas, porque agrega ao meu conhecimento. Além disso, acabo estudando algumas frases de filósofos”, reforça ele, que acredita que tal conhecimento pode se estender para outras provas, como redação. “Posso usar na escrita, de uma forma contextualizada, de modo a saber explicar de onde veio a referência”, exemplifica.

“Eu leio muito, tanto as obras exigidas para os vestibulares quanto livros extraclasse. Em literatura, além de ler, faço os exercícios que a professora indica”, afirma Amanda Flores. Para chegar lá, Yuri Oliveira, 17, aposta na revisão das edições anteriores. “Procuro estudá-los junto a gabaritos comentados e atento com o tempo para fazer cada questão”, finaliza.


Prazo para simulado é estendido

O simulado on-line do Correio, em parceria com o curso Exatas, disponível desde 23 de setembro, teve seu prazo estendido até terça-feira (2). Quem não fez as 180 questões inéditas tem nova oportunidade para testar, gratuitamente, seu conhecimento. Para participar, basta acessar o site. Ao final, os estudantes receberão a nota, calculada de acordo com a Teoria de Resposta ao Item (TRI), e sua classificação no ranking geral.

Do Correio Braziliense

Reportagem especial CB*

*Estagiário sob supervisão de Ana Sá