Morador de rua faz livro de poesia sobre vida nas calçadas de...

Morador de rua faz livro de poesia sobre vida nas calçadas de São Paulo

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Encostado na estátua de Álvares de Azevedo, no Largo São Francisco, Gilberto Camporez diz que morou 13 anos ao lado do poeta romântico do século XIX e que só descobriu quem era recentemente, quando começou a escrever poesia também. Foi nas ruas ao redor do monumento que ele viveu as experiências que estão nas 25 poesias do seu primeiro livro, “Velha Calçada”, que será lançado nesta sexta-feira (16).

Em 2005, com 17 anos, Gilberto, saiu do interior de São Paulo e chegou às calçadas do Centro da capital paulista, que se tornaram sua moradia na maior parte do tempo até hoje. Nas mesmas calçadas, durante uma festa universitária em 2015, ele conheceu alguns alunos da Faculdade de Direito da USP, que descobriram suas poesias e o convidaram para um recital que acontecia naquele momento.

Sem ensaiar, e com medo de vaias, Gilberto declamou os versos para um grupo grande de estudantes. “Eu estava todo sujo, de chinelo e pensei: logo eu, recitar uma poesia em um lugar tão bacana”, contou Gilberto, agora com 29 anos. Quando terminou de citar o último verso começaram os aplausos e os elogios. Ali começava o projeto dos jovens com o poeta para publicar uma coletânea.

Desde esse dia, 20 jovens começaram a arrecadar dinheiro para a publicação, que foi editada por eles e que será lançada em um auditório da USP São Francisco. Hoje, enquanto anda pelo campus, professores, funcionários e alunos cumprimentam Gilberto e perguntam sobre o lançamento. O objetivo é conseguir fundos, com a venda de 500 exemplares e de camisetas com trechos da obra, para pagar um aluguel e tirar o autor das ruas.

Recomeços

A vinda para São Paulo foi uma busca por outras realidades, depois de ter problemas com drogas e de viver a infância e a adolescência em um ambiente familiar de brigas. Gilberto foi diretamente para as ruas, de onde conseguiu sair por alguns períodos. Teve empregos, de faxineiro e ajudante de cozinha, por exemplo. Em um deles chegou a ganhar um salário de mais de R$ 4 mil.

Nesse intervalo de tempo se reabilitou, teve casa, esposa e um filho, que hoje mora com a avó paterna. Depois de uma separação conturbada, há quatro anos, voltou a viver nas ruas da Sé.

Começou a escrever para ajudar a lidar com as recaídas e com a depressão. Ele conta que foi preso injustamente duas vezes e teve seus pertences, entre eles cadernos com todas as suas criações, confiscados mais de uma vez. São materiais que ele nunca recuperou.

“Eu sofri muito, mas eu sempre começo de novo. Conheci muitas pessoas que me ajudaram a não desistir.”

Publicar o livro, para o escritor, é sinônimo de recomeço. Depois do lançamento ele espera conseguir alugar uma casa e encontrar um emprego, além de realizar a vontade de abrir uma empresa de bolos. Já tem até lugar para o negócio: um estacionamento no centro mesmo, bem próximo à faculdade. Para o futuro, sonha em publicar mais livros, entre eles uma biografia, que quer que um dia vire filme.

Alunos da USP

“Esse é o cara”, diz Gilberto enquanto abraça Antônio Cesar, de 21 anos, em frente ao lugar onde dorme, e onde os dois se encontraram há cerca de dois anos. Antônio comanda o grupo dos 20 voluntários responsáveis por viabilizar a publicação do livro “Velha Calçada”. Na época que conheceu Gilberto, o jovem estudava no cursinho popular da universidade. Hoje, ele estuda economia.

Em uma mão, Antônio anda com uma pasta de documentos, com planilhas de orçamento, arrecadação, custos e planejamento, tanto para o lançamento quanto para o processo de aluguel de um apartamento. Na outra, com a sacola de livros e camisetas que estarão à venda no evento.

O estudante comprou os primeiros pacotes de trufas que Gilberto vendeu para começar a juntar o dinheiro necessário para imprimir os livros. Agora organiza também o evento que vai apresentar o resultado. “Eu vi ele recitando as poesias, posso dizer que até me apaixonei por algumas, e vi que era um trabalho que podia dar certo”, lembrou o jovem.

Gilberto fez questão de escrever no livro uma dedicatória para cada aluno que participou do processo. Sobre Antônio, redigiu que palavras são minúsculas se comparadas ao que tem por dentro para oferecer. O estudante reforça: “ele vai poder contar com a gente sempre”.

Velha Calçada

“Velha calçada,

Aqui me despeço depois de muito tempo.

Confesso que vou sentir saudades,

Pois foi você quem mais presenciou momentos ruins em minha vida.

Lembra aquele dia em que eu não tinha onde dormir?

Pois você deu um jeito e dormimos juntos.

E aquele dia em que eu desmaiei por sentir fome?

Então você me segurou e esperou até que a emergência chegasse.

E depois que sai do hospital, você ainda me esperava.

Obrigado, velha calçada!”

(Gilberto Camporez)

Fonte: G1